Você é um Espírito Livre?

Como sempre costumo pensar, há um tempo certo para tudo nesta vida. Há meses, não tenho conseguido fazer a devida atualização do meu site. Os motivos para eu ter negligenciado meus posts são diversos, entre eles, a ausência de inspiração para escrever algo que eu considerasse interessante.

Porém, o maior empecilho tem sido a “falta de tempo” para uma tarefa que entendo não ser prioritária no atual momento de minha vida. Quando queremos muito uma coisa e ela é importante, criamos um tempo… certo? Pois bem. Hoje, finalmente, eu consegui criá-lo.

Recentemente, um amigo me questionou sobre o que eu entendia sobre a expressão “espírito livre”. E aí, a minha mente gritou para mim: “está aí um tema muito bom para um post!”

A primeira vez em que tomei conhecimento sobre essa expressão foi lendo Nietzsche, há alguns anos. Destaco abaixo um trecho de sua ideia central sobre este tópico:

“É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é exceção, os espíritos cativos, a regra; […] De resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém, ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé.” (Humano, Demasiado Humano).

Para Nietzsche, conforme a supramencionada citação, um espírito livre é alguém que vive de acordo com suas próprias condutas morais; que cria suas próprias aspirações sem nenhuma influência do meio em que vive; que segue um caminho que o leva, inevitavelmente, à solidão. Na verdade, seu refúgio e sua força é embasada na solidão e na forma de enxergar o mundo com total liberdade de pensamentos e atitudes, com foco no autoconhecimento e na crítica à “moral do rebanho”, não se deixando dominar pelos valores sociais ou religiosos que lhe são impostos.

Após esta breve elucidação, gostaria de externar o que eu penso, diante de minha limitada perspectiva pessoal.

Para mim, um espírito livre não se resume a alguém que apenas “nada contra a maré”; que vai de encontro aos padrões morais vigentes; que se orgulha de não ser um mais um no rebanho, teleguiado por uma sociedade doente, bélica, competitiva e castradora. O dito espírito livre é muito mais do que isso.

Discordo do nobre filósofo alemão quando ele afirma que para ser livre o espírito precisa enxergar apenas o mundo material; pensar tão somente tendo “a razão” como seu guia. Não entrarei em detalhes de cunho religioso, até porque sou avessa às religiões. Não creio, entretanto, que se uma pessoa tem fé ela é, necessariamente, um espírito cativo (preso; iludido; dominado pelos padrões sociais). É possível ter fé e, inclusive, pertencer a uma denominação religiosa, e ainda assim vivenciar as experiências de um espírito livre.

Concordo, porém, quando ele diz que para questionarmos a sociedade em que vivemos e nos libertarmos das amarras que ela nos impõe, é necessária uma boa dose de “mergulho interior”; de refúgio; de solitude (não de solidão).

Essa importante diferença entre solitude e solidão é trazida, brilhantemente, pelo filósofo indiano Osho. Vejamos sua belíssima explanação:

“Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós. A solitude é nossa verdadeira natureza, mas não estamos cientes dela. Por não estarmos cientes, permanecemos estranhos a nós mesmos e, em vez de vermos nossa solitude como uma imensa beleza e bem-aventurança, silêncio e paz, um estar à vontade com a existência, a interpretamos erroneamente como solidão. […] A solitude tem uma beleza e uma imponência, uma positividade; a solidão é pobre, negativa, escura, melancólica. A solidão é uma lacuna. Algo está faltando, algo é necessário para preenchê-la e nada jamais pode  preenchê-la, porque, em primeiro lugar, ela é um mal entendido. À medida que você envelhece, a lacuna também fica maior. As pessoas têm tanto medo de ficarem consigo mesmas. […] Aqueles que conheceram a solitude dizem algo completamente diferente. Eles dizem que não existe nada mais belo, mais sereno, mais agradável do que estar só. […] Após entrar em sintonia com sua solitude, você pode se relacionar. Então, seu relacionamento trará grandes alegrias a você, porque ele não acontecerá a partir do medo. Ao encontrar sua solitude, você pode criar, pode se envolver em tantas coisas quanto quiser, porque esse envolvimento não será mais fugir de si mesmo. […]Assim, lembro a você: não confunda solitude com solidão. A solidão certamente é doentia; a solitude é perfeita saúde. Seu primeiro e mais fundamental passo em direção a encontrar o significado e o sentido da vida é entrar em sua solitude. Ela é seu templo, é onde vive seu Deus, e você não pode encontrar esse templo em nenhum outro lugar.” (Amor, Liberdade e Solitude: Uma Nova Visão Sobre os Relacionamentos)

Quem me conhece bem, sabe que entre Nietzsche e Osho, eu fico com este último. Não que o primeiro não tenha sido genial como filósofo, filólogo e escritor. Mas Osho é estupendo. Os discursos desse mestre em meditação e professor de filosofia permitiu a escrita de mais 600 livros.

Penso que uma pessoa de espírito livre é aquela que:

  • Vê beleza nas coisas simples da vida;

  • Aprecia a sua própria companhia e não teme os momentos de solitude;

  • É capaz de dizer “não” sempre que necessário;

  • Fala sobre amor e ama com muito afeto, entrega e intensidade;

  • Fala sobre seus medos e sobre seus sonhos;

  • Não age apenas por convenções sociais;

  • Não expõe sua intimidade e os acontecimentos bons de sua vida para se elevar ou se exibir;

  • É curiosa e apaixonada por novos aprendizados;

  • É meio louca, mesmo abraçando uma intensa lucidez;

  • Erra, cai e segue em frente sem dar justificativa de sua vida para a sociedade;

  • Faz o que julga ser certo;

  • Deixa de fazer algo quando isso vai de encontro aos seus princípios ou suas vontades;

  • Jamais se deixa escravizar pelas imposições que a mídia vende como “vida ideal”;

  • Gosta de sair sozinha, sem achar tal fato triste ou vergonhoso, embora aprecie uma boa companhia com total presença e entrega;

  • Investe em experiências (encontro de almas; aprendizados; coisas que serão eternizadas em sua mente e coração) em detrimento da desenfreada conquista por bens materiais;

  • Escolhe seu próprio caminho e assume as consequências de suas escolhas;

  • É uma eterna aprendiz, buscadora, questionadora e sonhadora;

  • Vive apaixonada e intensamente, com a plena consciência de que está aqui só de passagem.

Destaco, entretanto, que possuir um espírito livre não significa que uma pessoa não tenha um lado conservador e não precise ou não queira seguir certas regras. Muitas pessoas confundem esse termo com alguém que sai fazendo as coisas sem ponderar ou criticando a tudo e a todos, querendo ser o “diferentão”. Não é bem assim.

Eu me considero um espírito livre, mas isso não faz de mim uma maluca que não segue certos padrões de comportamentos (os que me são importantes) ou que não espera certas coisas da vida.

Sou extremamente organizada, planejadora e racional. Sou contra o conceito clássico do casamento. Isso me permite afirmar que jamais me casarei na igreja e jamais assinarei um contrato porque penso que um amor verdadeiro não precisa das “garantias da lei” ou da benção de um sacerdote para ser genuinamente bem-sucedido.

Também não acho que toda mulher precise ter um marido e ser mãe para se sentir plena. Esse é um conceito ultrapassado e por demais provinciano. No entanto, em contrapartida, escrevo romances com finais felizes (até mesmo com alguns casamentos). Ser um espírito livre é, acima de tudo, ser um absoluto PARADOXO; UMA DUALIDADE (entre fé e razão, por exemplo).

No fim das contas, quero o que todo mundo quer: “música, amigos e alguém para amar”. Eu só preciso viver a minha vida da forma que eu achar mais acertada. Se uma mulher deseja um casamento tradicional, ela tem que acreditar que é possível concretizar seu sonho. Se uma mulher não sonha com a mesma coisa, ela deve ser respeitada. Afinal, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. (Caetano Veloso).

Não há maior liberdade do que sermos nós mesmos, em nossas delícias e dores; em sermos autênticos e verdadeiros; em respeitarmos as diferenças; em vivermos com intensidade.

Lu Ramos

“Segura teu filho no colo…
Sorria e abraça teus pais enquanto estão aqui…
Que a vida é trem-bala, parceiro…
E a gente é só passageiro prestes a partir.” (Trem-Bala – Ana Vilela)

 

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Lu Ramos Author

Comments

    Felipe P

    (10/08/2017 - 02:29)

    Você é uma ENFP. Muitas pessoas nascem assim, cerca de 9 a 11% das pessoas são “ENFP” na teoria psicológica do MBTI é que são consideradas as pessoas espírito livre. Pessoas muito extrovertidas e bastante sensoriais ao estímulo externo. Gosto muito de enfps.

      Luciana Ramos

      (07/09/2017 - 19:13)

      Que interessante, Felipe. Adorei seu comentário.

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